Além de samba, carnaval e culinária, infelizmente, o que representa o povo brasileiro é o seu alto nível de endividamento. Em novembro de 2023, o Brasil tinha mais de 71 milhões de inadimplentes e as dívidas de cartão de crédito e gastos com a cesta básica eram os principais fatores de endividamento. É o que diz os dados de pesquisas realizadas pela Serasa.

Na busca pela redução da inadimplência, o governo federal lançou, em 2023, o ‘Desenrola’, programa digital de negociação de dívidas negativadas, que já renegociou mais de R$ 29 bilhões em débitos, de quase 11 milhões de pessoas.

O endividamento ocorre quando o cidadão tem parte da renda mensal comprometida, e a inadimplência quando não consegue honrar seus pagamentos, tendo seu nome incluído no cadastro de proteção ao crédito. Marcos Mendes, coordenador da unidade de capitalização e serviços financeiros do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Rio de Janeiro, o Sebrae-RJ, enumera alguns fatores que resultam na inadimplência das famílias.

“Quando a economia está em crescimento, pujante, em pleno emprego, com baixo desemprego e aumento da renda, é provável que as famílias tenham condições financeiras melhores, o que pode resultar em menor inadimplência. Por outro lado, em período de recessão econômica, baixo crescimento, alto índice de inflação e desemprego, e estagnação salarial, as famílias podem enfrentar dificuldades financeiras levando ao nível altíssimo de endividamento, então as pessoas recorrem ao crédito para suprir suas necessidades básicas, ou até mesmo enfrentar despesas inesperadas”, explica Mendes.

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2022, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, revela que além de serem a maioria entre os inadimplentes, as mulheres, sobretudo as negras, também são as que mais sofrem com o desemprego. As informações ainda revelam que quando empregadas, trabalham mais, porém ganham menos e ainda chefiam seus domicílios. Fernanda Alves, de 41 anos, servidora pública, contraiu dívidas para manter o financiamento do seu imóvel.

“Eu vivia em renda compartilhada com meu ex-marido, e o foco principal da nossa renda era para pagar o nosso imóvel, de acordo com o divórcio, ele abriu mão do imóvel, ele não quis, então eu fiquei com a casa e a dívida. Meu primeiro recurso foi fazer um empréstimo consignado para suprir as primeiras despesas e ver como eu ia viver dali para frente. Hoje, são três empréstimos consignados, um empréstimo em outro banco, um empréstimo com agiota, um empréstimo sem juros no valor de R$ 3.000 com uma determinada pessoa e outro empréstimo no valor de R$ 2.500 com outra”, conta Fernanda.

A Pesquisa Nacional sobre Desigualdades de 2023, desenvolvida pelo Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com o Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica, revelou que um em cada três brasileiros buscam uma renda extra para pagar as contas. Para Marcos Mendes, o salário mínimo brasileiro, recentemente reajustado para R$ 1.412,00, ainda é baixo para suprir todas as necessidades de uma família, por isso defende a importância da educação financeira.

“É recomendado utilizar algumas planilhas de Excel, caderno, fazer anotações sobre o seu orçamento, quando possível, é aconselhado realizar o pagamento à vista, evitando compras a prazo, para não perder o controle financeiro. Ou seja, o uso excessivo do cartão de crédito compromete cada vez mais a renda da família brasileira. O que passa por uma melhor gestão é, você ter um autocontrole, responsabilidade e autoconhecimento, fazer um diagnóstico a respeito da sua situação financeira, ver o que de fato está impactando, quais são as alternativas, quais são as saídas que você tem para contornar sua situação”, orienta Mendes.

Outra medida do governo federal para conter a inadimplência é o novo limite para o teto de juros do cartão de crédito. Isso significa que, independente do tempo, mesmo com os juros, a dívida só poderá duplicar de valor. Fernanda controla seus gastos rigorosamente e tenta evitar fazer novas dívidas, principalmente de cartão de crédito e para isso criou algumas estratégias.

“Tudo na ponta do lápis, cada centavo, eu não compro nada sem conferir preço, ando dois ou três supermercados. O cartão de crédito que ainda tenho, utilizo de forma conciliada; um mês eu pago e não uso, no outro mês, eu pago uma dívida, se eu precisar com algum recurso como colocar crédito no RioCard ou faltar algo na minha casa, aí eu vejo o quanto vou poder pagar para utilizar só aquilo que eu posso arcar. Hoje, eu não faço mais nenhuma dívida além da que eu já tenho”, conta Fernanda.

Para saber como renegociar suas dívidas com o “Desenrola’, acesse o site gov.br/fazenda.

Do Rio de Janeiro para a Rádio Uerj, Lorran Rosa.